Cronica escrita por: Osni Alves J
CRÔNICA
Rio, 7 da manhã, sol ainda se levantando, mas o calor, típico do Estado, já castiga os milhares de trabalhadores e estudantes que se deslocam para seus compromissos diários.
Uma massa disforme de pessoas se afunila no metrô. O trem está abarrotado, mas a cada nova estação mais gente entra e menos gente consegue sair. É o caos do transporte público.
Enquanto aguarda o trajeto entre Madureira e a Central do Brasil, imóvel, asfixiado, inseguro e atento a não movimentação para se resguardar de possíveis furtos, tem seus pensamentos interrompidos por uma frase nada convencional que quebra a rotina e faz graça em meio ao drama.
- Quem tá me encoxando aí atrás – pergunta o operário fazendo piada com o excesso de pessoas no vagão e concluiu: se sair sem deixar o telefone eu mato!
A troça quebra o gelo das demais pessoas e o burburinho de conversas paralelas aumenta. O que mais se ouve são “papos de boleiro” sobre o Fla X Flu da noite anterior.
Quarenta minutos depois, já fora do metrô, sobe para o nível da rua e pensa em tomar um café na lanchonete em frente à Praça da República. Confere os poucos trocados na carteira e desiste, afinal ainda há o dia todo pela frente!
Ao término do expediente, por volta de 18 horas, segue rumo à Faculdade, onde cursa Pedagogia. Sempre quis ser advogado, mas os poucos recursos lhe impediram entrar em instituições privadas. Já a falta de uma educação básica de qualidade fez com que não passasse no vestibular de universidades públicas, ao menos nas últimas duas tentativas.
Na sala de aula, o calor, o excesso de alunos e o medo constante de contrair dengue são alguns fatores que distraem a atenção dos futuros professores. Aliás, na capital Fluminense a beleza geográfica perde o encanto em meio às toneladas de lixo que estão nas ruas, calçadas, praias e demais lugares.
Às 22:30 já está novamente entrando no metrô rumo a zona norte da cidade. As plataformas estão lotadas, mas a pontualidade do transporte aliado ao cansaço e vontade de chegar em casa fizerem optar pelo primeiro trem que chegou à estação. Segue apertado.
Na penúltima estação começa a se direcionar para a porta do vagão. Aperta a pasta contra o peito e entre empurrões e pedidos de desculpas chega, por fim, a uma distância que lhe permite sair do trem.
Enquanto caminha rumo sua casa, percebe a movimentação de policiais, moradores e imprensa. Ao som de sirenes e tiros, segue rente ao muro que dá acesso à favela Caxangá. Sem aviso prévio, pedido de identificação ou voz de prisão, encerra sua rotina com um tiro de fuzil no peito. Acusação: pobre, pardo e favelado.