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EU CRONISTA

Cronica escrita por: Julio Garcia

Noite dos Vagalumes

Memórias: Noite dos Vagalumes
Ontem dei uma passada na caverna a procura de um livro, mas não encontrei e também nem tanto me empenhei. Não chamei a moça simpática que sempre me atende, pois de vez em quando faço-lhe uma visita. Não me foi ainda tirado esse costume de comprar bons livros, mesmo que seja pra ficar na prateleira, pois tenho lido muito pouco nos ultimos dois anos e eles se acumulam ali na estante do meu quarto, por dentro das gavetas. Meu pensamento foi cortado em pleno corredor e quando me dei conta que havia esquecido o nome do autor e ja não tinha tanta certeza do título, caminhei entre as prateleiras, olhei para fora através da vitrine, dei uma passada de olhos em Hitler e voltei ao corredor a perseguir uma luz verde e outra vermelha que dançavam pelo teto. Elas faziam acrobacias, deitavam ao chão e simulavam assinaturas, depois seguiam em linha reta e raspavam as cabeças dos passantes, ficavam paradas, depois se revezavam em movimentos tantos. Seus donos eram meninos vestidos em Nike. Com roupas coloridas, corriam pelos corredores de pedra fria aos suspiros de exaustores e calor de luzes. Meus olhos acompanhavam a dança e me fiz menino também. Sem o mínimo esforço fui parar num final de tarde esgazeada no inicio do verão, onde cigarras camufladas zunian por nossos ouvidos o canto contínuo de sua existência, agarradas ao pé de gabiroba que além do som exalava o cheiro doce das frutas maduras. Encontramo-nos ao lado do cerne de canela vertical, no canto direito da calçada, na casa branca que mudava de cor ao ocre da noite. A mesma que lentamente calava o canto das cigarras e acomodava as pessoas em janta ao som das pombocas ao falhar do pano no querozene, e o rádio, que mais tarde transmitiria a Missa do Galo diretamente de Roma. Ouviriamos sentados nas cadeiras ou no cimento da calçada o sermão do Papa. Era noite de Natal, quando a poeira baixava ao sereno e se esperava Papai Noel, que vinha com um saco vermelho e barbas grandes. Ele traria a bola de futebol numero cinco desta vez, pois em anteriores não conseguira e por vezes consecutivas trouxe a de numero três. Comiamos maionese e galinha ensopada, carne de panela com pimentão recheado e bebiamos gazoza de limão. Quando a noite caiu, uma escuridão só habitava a estrada nua, no além capão um clarão longíncuo da lua que nascia no mar, e só mais tarde chegaria aos nossos olhos. Estavamos a postos, eu, meu irmão mais novo com seus dentes gandes na frente e cabelo amarelo, Plinio, Zézinho, Ailton, Vavá, Alcidia, Horlanda, Ezaltina, a sobrinha de Zefa, prima de meu pai e Zeca, que quando crescesse iria embora para o norte. De repente luzes pequenas começavam a rondar os céus, umas vinham do sul e outras do oeste, do norte, umas saiam do meio do mato além do arceiro e começamos a correr pelo terreiro. _Oooi, qui tanto, olha rapaze! Meu Deus, que tanto tem hoje! Sim, vamos pegá os pau de fogo._ Entramos na casa e pegamos cada um a sua acha de lenha em brasa no fogão e ficamos no meio do terreiro a olhar pro céu. Pro céu de nossa existencia, por onde certamente viria o trenó de Papai Noel com suas renas aladas a trazer nossos presentes. Balançávamos as achas douradas em rodopio, que soltavam faíscas á morrer na gravidade do chão batido e outras mais se desprendiam enquanto o fumo rumava ao alto. As luzes se aproximavam como se a terra fosse um imã e elas, naves de espaços outros, a desvendar mistérios não vistos por nossos olhos. Pulava-mos para o alto em mãos de palma para acertá-las, e que perdessem o rumo dando por terra. Éramos guerreiros em calça curta, de camisetas nuas de desenhos e congas azuis com seus bicos brancos, com espadas de fogo empunhadas a defender o planeta de invasores luminosos. Caiam ao chão e o colocavamos em copos de vidro. Quando cada um de nós tinha em poder uma unidade, cobria-mos o copo com a mão descansada das achas vermelhas e entrava-mos na casa. Sobre a mesa descansada da janta era colocado na frente de cada um o seu vagalume que andava sobre a canela preta centenária e abria suas asas para alçar vôo, mas eram interrompidos. Nesse ato o pequeno vagalume era virado de pernas pro alto e mensionada a frase,_ Pula Maneca! Pula Maneca! _Ele se contorcia em parte da couraça como pescoços em nós, paravam as pernas de remexer e num impulso saltavam e caiam sobre a mesa. Se caissem de pé, eram os melhores e teriam a chance de retomar o vôo, se caissem na mesma posição, ficavam a ouvir consecutivos _Pula Maneca! Pula Maneca! _até que caissem em posição de viagem. Os maiores eram mais fortes e pulavam mais alto. Muitas vezes o virava-mos outra vez para que continuassem pulando e mostrando suas destrezas na arte da fuga. Depois de muitos pula Maneca, pula Maneca, os levava-mos na ponta do fura bolo até o terreiro e como porta aviões de outras guerras os levantavamos até depois de nossas cabeças, então abriam suas asas, ajeitavam as pequenas pernas e ganhavam os céus entre as arvores. O escuro da noite, agora iluminada por aquele corpo que trazia os dezenhos de São Jorge em luta com o dragão, se transformava num campo de diamantes que piscavam enquanto olhavamos para ver o trenó chegando. Era meia noite, a mãe chamou para a porta da sala e todos se ajeitavam sentados no lado de fora. Ia começar a Missa do Galo, so depois Papai Noel baixaria o trem de pouso e ouviriamos o bufar da renas. Ganhariamos, então, os esperados presentes: a bola de futebol oficial, as luvas de ferro para lutar com inimigos, a máquina que imitava o Zé Trocate e o caminhão que iria trazer os postes para a estrada de barro, já o progresso das lâmpadas elétricas estava por chegar. Teriamos iluminação na rua da noite turva, sumiriam os vagalumes, sumriam os fantasmas e também a disposição de esperar o Papa falar de tudo que era talvez importante para os pais, mas para nós nem tanto. Uns foram embora para suas casas e eu adormeci ali, no cimento quente da calçada, sob a luz da lua e o reflexo da pomboca. Fui levado para cama ao som do rádio e dormi sonhando com minha bola oficial, sonhando que Papai Noel fosse me acordar ao bufar as renas na minha janela entreaberta e desse em mão o presente tão esperado. Adormeci profundamente e pela manhã a bola de futebol estava nos pés da cama, embrulhada num papel vermelho, mas não era a numero cinco e sim como as de outros anos, a de numero três, pois o Noel tinha muitas crianças a quem presentear No ano vindouro, depois que as juviaras tomassem rumo de volta pra casa, viria a tão esperada bola oficial. No campo, pela manhã, chutei a bola para o alto e cemeçamos o jogo.

Autor: Julio Garcia.
23/08/2011.

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